O PIO DA CORUJA

“Murucututu lá na beira do telhado, leva esse menino que não quer dormir sossegado”.

Nina

Em certas áreas do Brasil acredita-se que as corujas anunciam a morte quando voam sobre a casa da pessoa doente ou pousam em seu telhado, acreditando que a morte do enfermo se aproxima. O acauã (Herpetotheres cachinnans) tem uma vocalização de tom grave, atingindo seu canto, grande distancias. É interpretado como sinal de morte eminente. Mesmo sina tem a suindara (Tyto Alba). Seu canto é um anuncio de morte, segundo populações ribeirinhas do norte do Brasil.
Eu acredito ser verdade.
No início de 2015, uma coruja cantou no telhado de minha casa.
Ao ouvir o que me parecia um arrulhar, e comentar com meu filho Rod dizendo que eu não gostava de ouvir os pombos no telhado de nossa casa, ele retrucou: Não é pombo, pai, é uma coruja.
Gelei, mas não comentei mais nada, e com ninguém.
Mas já no meio daquele ano, Rod começou a sentir uma dor no braço.
Em princípio era somente uma dor muscular que poderia ser tratada com um anti-inflamatório e massagem com alguém unguento.
Mas duas cirurgias depois — e muita radioterapia, na tentativa de se extrair um tumor maligno Triton, da bainha neural periférica — Rod teve que amputar o braço direito no HC, em 2016: trocou seu braço pela vida — http://www.tortoro.com.br/blog/?p=7737 — http://www.tortoro.com.br/blog/?p=8473
Eu me lembrava do pio da coruja.
Mas a metástase inexoravelmente atingiu seu abdômen, e um tumor de mais de dois quilos foi retirado após terríveis sessões de quimioterapia — http://www.tortoro.com.br/blog/?p=8790 — http://www.tortoro.com.br/blog/?p=7905.
Seria o pio da coruja?
Em pouco tempo, já estávamos em 2017, um nódulo surgiu no pulmão direito do meu Rod, e depois mais, mais, mais um…
Tinha início minhas férias de julho, e uma consulta marcada com o oncologista para 31 de julho, a fim de ser analisada a tomografia e tomadas de novas medidas.
Mas antes disso, no dia 5 de julho, fomos ao hospital, quando então ocorreu a retirada de dois litros de líquido do pulmão. Uma semana depois, Rod voltou ao hospital com muito mal estar e sem vontade de comer… para retirar parte do pulmão direito juntamente com um dos tumores. Era dia 30 de julho de 2018. Realizados os exames, era sarcoma, mais violento do que nunca. http://www.tortoro.com.br/blog/?p=11831.
Rod, meu guerreiro, ficou em casa durante 15 dias, sem comer direito, com mal estar, dores que nem a morfina conseguia deter…e passou a não conseguir andar por sentir uma pressão terrível nos pulmões. http://www.tortoro.com.br/blog/?p=11793.
E o pio da coruja não saía da minha cabeça.
No dia 14 de agosto entrou pelas portas do hospital São Francisco, para só sair do quarto 271, sem vida, na madrugada do dia 16 de agosto. http://www.tortoro.com.br/blog/?p=11848.
Cumpria-se a maldição do pio da coruja: meu filho Rod levava para o túmulo, junto com ele, um sarcoma que destruiu seu corpo, mas deixou imaculada sua alma, dada de presente ao Altíssimo.
Meu guerreiro venceu o câncer – http://www.tortoro.com.br/blog/?p=11717 – após mais de três anos de uma guerra que parecia sem fim.

ANTONIO CARLOS TÓRTORO
ancartor@yahoo.com
www.tortoro.com.br

ACADEMIAS, ARE-Academia Ribeirão-pretana de Educação, ARL- ACADEMIA RIBEIRÃOPRETANA DE LETRAS, ARTIGOS, Colégio Anchieta, EDUCAÇÃO, LITERATURA