LI E GOSTEI: PADRE CÍCERO – PODER, FÉ E GUERRA NO SERTÃO

PADIM CIÇO: UM HOMEM BOM E COM VIDA EXEMPLAR.

“Há muito acredito que o realismo é fantástico”
Gay Talese

Depois de ler Padre Cícero – poder, fé e guerra no sertão, de Lira Neto, transformei-me em um novo admirador de Padim Pade Ciço.
Estou morrendo de vontade de, no futuro, num dia 20 de julho qualquer — Cícero faleceu no dia 20 de julho de 1934 — estar de pé, diante da capela de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em Juazeiro, cantando a música eternizada pelo devoto de Cícero, Luiz Gonzaga, o rei do baião, juntamente com milhares de romeiros:

Olha lá,
no alto do Horto!
o Padim não tá morto!

Espero que nas prateleiras empoeiradas do antigo Tribunal do Santo Ofício, por determinação de Bento XVI, os documentos secretos que resultaram na expulsão de Cícero das fileiras da Igreja comecem a acordar de um sono de quase cem anos…e que se faça justiça.
Mas para falar sobre essa obra, não encontrei ninguém melhor do que Felipe Pimenta, Professor. Bacharel e Licenciado em Filosofia pela Universidade do Sul de Santa Catarina. Pós-graduado em Bioética pela Universidade de Caxias do Sul (UCS):
“Padre Cícero é uma das figuras mais reconhecidas e polêmicas do Nordeste. No livro de Lira Neto, podemos chegar à conclusão de que se tratava de um homem justo e honesto, no entanto, foi vítima de perseguições por parte da alta hierarquia da igreja muito por causa de um etnocentrismo mal-disfarçado. Lira Neto caracteriza o período no qual o padre Cícero frequentou o seminário como de uma leve rebeldia. Nada além do que os seminários enfrentavam frequentemente. Foi ordenado e seguiu para o sertão do Ceará. Passou a ser o centro das atenções da imprensa e do alto clero por causa de um fenômeno que passou a acontecer com uma das beatas que frequentavam suas missas. O nome dela era Maria Araújo, sendo negra e pouco instruída. O milagre alegado era que quando a beata comungava, a hóstia transformava-se em sangue. Estas alegações chegaram ao bispo Dom Joaquim, que se tornaria inimigo implacável do padre Cícero. Foram enviados padres em nome do bispo para averiguarem o ocorrido, e eles puderam testemunhar a favor do milagre. Médicos também confirmaram o fenômeno. Entretanto, o bispo dom Joaquim estava determinado a não dar crédito ao suposto milagre e fez de tudo para desacreditar o padre Cícero e a beata Maria Araújo. A explicação mais simples do porquê de tanto ceticismo foi dada pelo padre francês que dirigia o seminário em que Cícero estudou: “Deus não sairia da França para fazer milagres no Brasil.” Com esta sentença, a igreja nunca iria reconhecer o milagre de Juazeiro. Esse é um problema fundamental do clero católico até hoje: o que sobra em dogmatismo falta em caridade. Padre Cícero então recebe reprimendas que suspendem o seu direito de celebrar missas por causa de sua recusa em não reconhecer como falsos os acontecimentos com a beata. O padre Cícero resolve apelar para o tribunal da inquisição para tentar ver reconhecidos como verdadeiros os milagres e para que as sanções dos quais foi vítima sejam retiradas. Com a vultosa ajuda de coronéis locais, consegue dinheiro e vai para a Itália. Dom Joaquim sabendo do ocorrido escreve a Roma alertando aos inquisidores sobre a figura do padre cearense. A carta surte efeito, pois Cícero é interrogado e os inquisidores chegam à conclusão de que os milagres não aconteceram e impõem reprimendas ao padre. O padre Cícero acata a decisão de Roma e a partir daquele momento não mais celebrará missas. Maria Araújo, por decisão de Roma, passará a viver reclusa pelo resto da vida. Graças à incompreensão do clero, Cícero passa a adotar a carreira política. Isto não impede que milhares de romeiros visitem sua casa e parem para ouvir seus sermões. O padre Cícero consegue, a partir de sua vida política, a emancipação de Juazeiro e torna-se seu primeiro prefeito. Lira Neto narra com precisão as guerras entre caudilhos locais pelo controle político do Ceará. Fica bem claro que todas as batalhas que Padre Cícero organizou foram meramente defensivas. Na verdade, a intenção de alguns de seus inimigos era transformar Juazeiro numa nova Canudos em nome do combate ao fanatismo. O padre Cícero depois será eleito deputado e fará uma aliança com Lampião para combater à coluna Prestes. O combate nunca aconteceu. Cícero termina a vida sem conseguir se reconciliar com a igreja. Em nenhum momento a biografia acusa o padre Cícero de estimular a superstição ou a ignorância entre o povo. O que vemos é uma total incapacidade por parte do clero de compreender a religiosidade popular do povo do sertão. Ao contrário dos outros padres e bispos, o padre Cícero era alguém que estava próximo ao fiel católico, estando sempre disponível a qualquer hora. O padre era alguém que trazia os ensinamentos cristãos para o cotidiano da população através dos sermões e também pelo exemplo da sua própria vida. A impressão que se tem é que a igreja não conseguia compreender que exemplos de vida, ou mesmo de santidade, pudessem vir de alguém de um lugar tão remoto do interior do Brasil. Como foi dito acima, por que Deus abandonaria a Europa para preocupar-se com o Ceará? Chegamos ao final do livro e podemos ter certeza de que o padre Cícero foi um homem bom e com vida exemplar. Nunca foi reabilitado pela igreja, mas a mesma aceitou muito bem o testamento do padre que transferia para ela boa parte do seu patrimônio. Lira Neto não faz nenhum juízo sobre a santidade ou não do padre Cícero, nem cabe a nós fazer o mesmo, mas o livro é esclarecedor sobre a vida de um dos personagens mais marcantes do Nordeste e do Brasil”.

ANTONIO CARLOS TÓRTORO
ancartor@yahoo.com
www.tortoro.com.br

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