ASSISTI E GOSTEI: O CIDADÃO ILUSTRE

HIPOCRISIA

Um filme ao mesmo tempo, incômodo, instigante e universal.

Vivemos um momento em que a arte está em discussão: o que é arte e o que não é.
Na obra de arte o artista cria algo que exprime o sentimento que ele experimentou: mas essa criação deve provocar algo nos leitores, porque penso que arte que não provoca, não é arte.
É ai então que mora o perigo, porque o leitor pode não separar o autor dos seus personagens, havendo a necessidade de, em algum momento que o autor “morra” a fim de que a obra e os seus personagens permaneçam.
Daniel, no filme O cidadão Ilustre — um escritor argentino e vencedor do Prêmio Nobel, radicado há 40 anos na Europa, volta para sua terra natal, ao povoado onde nasceu e que inspirou a maioria de seus livros, para receber o título de Cidadão Ilustre da cidade — escreve sobre sua pequena cidade, Salas, cidadezinha do interior da Argentina em que nasceu e onde viveu até o final da adolescência, e seu texto critica todos os aspectos dessa comunidade: desde o aspecto das fachadas das residências até as atitudes de seus habitantes de mentalidades tacanhas e pobreza de espírito, pessoas sem imaginação, horizontes, nem aspirações.
Como obra literária, levou-o ao Nobel de Literatura — uma láurea que ele lamentou haver recebido — mas, quando ele voltou da Europa e tentou viver entre aqueles seres reais, houve uma reação normal de todos os que se sentiram, de alguma forma, devassados em seus defeitos: o “endeusamento” acabou quando a cidade foi apresentada a um ser humano normal, Daniel Mantovani, que não conseguia — apesar de haver tentado sê-lo por uma questão de ter um bom relacionamento — ser hipócrita como seus personagens: ele até tentou entrar no jogo, mas cedeu à franqueza.
No filme, ninguém é poupado – nem Daniel em sua arrogância e vaidade, nem os salenses em sua mediocridade e mesquinharia; e todos são compreendidos em sua inescapável fraqueza humana. Na maior parte, a visita de Daniel se deve ao desejo de reafirmar para si mesmo sua superioridade intelectual, além de refrescar a memória sobre a sua grande fonte criativa. Da parte dos salenses, o convite se deve cem por cento à vontade de tirar uma casquinha do filho famoso, e pegar emprestados o lustro e a validação que ele representa. Todo mundo usa, ninguém acha que precisa pagar.
Mas voltando à hipocrisia atual.
Diante de homens nus sendo tocados por crianças, afrontas a religiões, incentivo ao estupro, devemos ter cuidado para não repetirmos atitudes muito salenses pondo para correr artistas e “artistas”, assim como fazem os moradores de Salas com Daniel, a certa altura de O Cidadão Ilustre, porque com isso, pode ocorrer como ocorreu com os salenses, que, sem querer, proporcionaram ao artista material para mais obras de sucesso: usando a cidade que ele detesta, e esta continuando a se fechar no seu provincianismo.
O Cidadão Ilustre é um filme com muito senso de humor: é hilário o momento em que o motorista para o veículo na estrada de terra, dirige-se para o mato que ladeia a rodovia e usa, diante das vistas do escritor, as páginas do seu livro agraciado com o Prêmio Nobel, como papel higiênico.
Mas é também um filme que fala da necessidade de ser hipócrita que a maioria dos seres humanos têm, a fim de serem aceitos pela maioria.

ANTONIO CARLOS TÓRTORO
ancartor@yahoo.com
www.tortoro.com.br

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